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A arte urbana do ACME conquista o Baixo Suíça

13 de ago de 2016

Se fosse um atleta olímpico, o artista plástico e grafiteiro ACME, cujo nome de batismo é Carlos Esquivel, ganharia o ouro. Autodidata, foi pioneiro no grafismo carioca e já recebeu diversas premiações nacionais e internacionais, além de ter exposto em galerias no Rio de Janeiro, São Paulo, França e Argentina. ACME preparou duas telas especialmente para o Baixo Suíça, que misturam elementos da Suíça e do Brasil, e também grafitou, ao vivo, duas vacas de fibra para o público conferir de perto seu trabalho. Batemos um papo com ele para saber um pouco mais da sua história e sobre arte que, assim como o esporte, pode transformar vidas. 

Como foi a experiência de expor sua arte no Baixo Suíça? 
Está sendo extraordinário, no sentido de estar descobrindo outra cultura, sobre a qual nunca havia me aprofundado muito. Quando comecei a fazer o layout das telas, entrei um pouco neste universo. Para mim é sempre um estudo, uma descoberta. Coloquei o Guga num visual suíço, mostrando um chalé de ferro numa geleira, parece uma fusão do antigo com algo futurista. E o Federer está num clima bem Rio, Brasil. É como se o Guga estivesse na Suíça e o Federer no Brasil. 

Qual recado você daria para alguém que quer ser grafiteiro? 
Eu vendia bolo na praia, engraxava sapato, vendia picolé. Eu consegui transformar uma parada que era crime, a pichação, e o grafite, que também era criminalizado e hoje é valorizado na mídia. Dessa forma, me considero um cara que teve visão e conseguiu enxergar isso. Isso é muita insistência, muito sonho. O moleque que quer traçar esse caminho tem que preparar para tomar muito baque. Quando eu comecei, não tinha ninguém fazendo e fui preso algumas vezes. Em muitos casos, estava trabalhando e os seguranças dos lugares não estavam avisados; quem é pioneiro quebra muito a cara. Temos várias gerações. Já passamos por uma, já conseguimos inserir o grafite nas ruas. Agora são outras dificuldades, outros preconceitos, oportunistas que tentam entrar no nosso mercado. A desvalorização e a valorização oscilam. Sempre repenso o motor que me faz fazer isso, qual o combustível que vai me fazer continuar fazer arte.

Você nasceu e mora na comunidade do Pavão-Pavãozinho e participou de diversos projetos em comunidades cariocas. Um deles foi o Circuito das Casas-Tela nas fachadas das casas dos próprios moradores, do qual foi criador artístico, e o Museu de Favela nas encostas do Maciço do Cantagalo, do qual é sócio-fundador. Como foi levar a arte para o seu lugar de origem? 
Foi importante para a evolução da arte dentro da favela, da inserção da cultura de acesso, mas também para a comunidade descobrir sua história. O fato de a gente descobrir que onde é a comunidade antes era um quilombo, que ela tinha uma origem candomblecista e hoje ela é na grande maioria evangélica. Conhecer as pessoas mais velhas, de 90 anos, que contam como era a favela antes do tráfico, quando vinham buscar água na Lagoa.  

Quais os planos para o futuro? 
A meta é continuar correndo neste circuito e conseguir estabelecer uma instituição independente, que se chama Ninho das Águias, no topo da favela - Acme quer dizer, inclusive, topo da montanha, em grego, fui descobrir isso mais tarde. Quero consolidar isso como causa, como motivo, para que as pessoas possam investir na cultura de acesso para o topo da favela, que é um lugar muito carente de informação e de acesso. Você tem um visual maravilhoso, mas muito lixo. Usar a visibilidade de artista para que as pessoas possam subir e descer o morro com mais facilidade.  Fico sempre atento ao nosso panorama político e tento passar uma mensagem de visão de águia, uma visão mais à frente. Quero que minha arte tenha uma utilidade social para o mundo. 

Quem quiser conferir mais arte do ACME, basta seguir a conta Instawalk Rio, um roteiro de arte urbana ao ar livre no Centro do Rio que inclui trabalhos comissionados pelo Instagram e criados pelos artistas ACME, Luiz Zerbini, Raul Mourão, Rita Wainer e Vik Muniz.